Lisboa - Porto - Faro - Setubal
toxicodependencia.com@gmail.com
21 826 88 86 / 93 507 66 58
Close
21 826 88 86 / 93 507 66 58 toxicodependencia.com@gmail.com
Carta para a Adicção

Mais do que tudo, assustas-me. A força com que tens levou a minha mãe para longe de nós, foi devastador. O poder de tua influência, a enormidade da tua transformação, a extensão de teu controlo foi, naquela época, além da compreensão, e absolutamente aterrorizante.

Disseram-me que eu tenho quatro vezes mais probabilidades de recorrer a ti, como a minha mãe fez. Quatro vezes. Eu já posso sentir a tua força nos momentos de fraqueza, a puxar-me para mais perto e isso paralisa-me de medo.

Eu tento muito limitar o meu contacto contigo, para deixar mais tempo e mais longos períodos entre a nossa, que sinto às vezes inevitáveis, reunião.

O problema é que estás em todos os lugares. Omnipresente. Inevitável. Todos os meus amigos te amam, e amam-me mais quando eu estou contigo, parece-me a mim. Eu tenho a confiança para “ser eu mesmo” quando estou contigo e esquecer toda a ansiedade, a autoconsciência e a preocupação.

Eu posso relaxar e divertir-me, e tivemos alguns momentos incríveis. Lembras-te da Tailândia? Lembras-te dançar com os pés descalços na areia durante toda a noite, até muito tempo depois de o nascer do sol?

Somos velhos amigos, tu e eu. Estives-te lá para mim quando eu estava em baixo, para anestesiar a dor, pelo menos um pouco. Estives-te lá para me divertir, para me libertar, libertando-me de toda a inibição.

O problema é, que já sinto que dependo de ti mais do que devia. Há certas coisas que eu sinto que eu simplesmente não poderia enfrentar sem ti. E isso me assusta. Profundamente.

Sem dúvida, vale a pena lembrar também, que nós tivemos alguns momentos terríveis embora me tentes fazer esquecer. Memórias obscuras de medo e desespero, de solidão e desespero, de profunda desesperança. Fizeste-me dizer e fazer coisas que eu nunca teria acreditado que podia, e parece um paradoxo curioso que em “sozinho” contigo, eu me tornei-me alguém que eu nem sequer reconhecia.

Acordar com a boca seca, a cabeça latejando e com sentimento de culpa. Às vezes, eu posso me convencer de que eu sou o único em controlo, mas nós dois sabemos a verdade. E tu és um mestre cruel das marionetes.

Estás perpetuamente a inovar nos teus métodos de infligir miséria. Encontras maneiras novas e variadas para manifestar o teu veneno. É incrível quantas saídas planeaste para garantir a tua sobrevivência. O minuto que estás sob a tua pele, o padrão das suas vítimas está definido: a autodestruição.

Eu vi o teu poder destrutivo e eu testemunhei a posse lenta mas determinada, da minha mãe. Eu assisti, impotente, à medida que ias devorando-a, despindo-a de tudo o que era, tudo o que ela amava e se preocupava. Mandaste embora seus amigos com a tua língua maldosa, alienaste-a da sua família, fizeste-a perder o seu trabalho e a sua casa. Jogas-te em seus piores medos. Fizeste-a fraca e assustada, perdida no seu próprio mundo pessoal de dor.

Reconhecendo só o sofrimento. Ela esqueceu prazer, esqueceu o riso, tudo. Tudo, menos a ti. Em tempos de posse total, a ela tornou-se uma forma de realização, uma personificação de tudo que és. De ódio e desrespeito, malícia e descontentamento, e raiva. Venenosa, traiçoeira, implacável.

Eu estou indescritivelmente orgulhoso de dizer, neste caso, há uma luz no fim do túnel para nós. Pode ter tomado seu tempo e ela pode ter caído no esquecimento uma ou duas vezes ao longo do caminho, mas ela está lá a chegar, lenta mas segura a reconstruir tudo o que destruíste. Ela está a ganhar força a cada dia. Com cada dia que passa, tornas-te cada vez menos importante para ela. Assim como a negação é aliada, a clareza é teu inimigo. Rir por rir, sorrir pelo sorriso, conquista pela realização, através de sua progressão, é a sua vez de destruir-te.

Quanto a mim… Eu danço uma dança perigosa entre a tentação e o terror, a sedução e a rendição, mas no final, eu sei, é o meu conhecimento íntimo de ti e do teu artifício que vai, inexoravelmente, extinguir a tua mestria.

Add Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Phone: 21 826 88 86 / 93 507 66 58
Lisboa - Porto - Faro - Setubal